Eleições 2018: crise política, Lava-Jato e fake news complicam a vida dos candidatos

Diante das suspeitas sobre a maioria dos partidos, dos casos de corrupção e da proliferação das notícias falsas, quem se candidatar terá de se desdobrar para convencer o eleitor

O cenário das eleições de de outubro é um país farto dos escândalos de corrupção, decepcionado com seus representantes, impactado pela prisão de um ex-presidente da República e confuso diante do fenômeno das fake news. Potenciais candidatos têm pela frente um desafio extra: encontrar o discurso capaz de romper a barreira do ceticismo, atrair eleitores indecisos ou dispostos a votar em branco ou nulo e recuperar a confiança perdida no Brasil da Lava-Jato.

— As pessoas finalmente parecem ter se dado conta da relação entre os desvios de recursos e a piora na qualidade dos serviços públicos. No passado, isso não era tão claro. Em 2006, um estudo mostrou que 75% dos brasileiros não se importariam em fazer vista grossa se o político oferecesse algum benefício. Hoje, qualquer pesquisa de opinião mostra que ninguém mais aguenta a corrupção. O eleitor tem outro olhar — diz Gil Castillo, chairwoman da Associação Latino-Americana de Consultores Políticos.

O início da virada é atribuído às manifestações de junho de 2013. Contra “tudo o que está aí”, inclusive partidos e seus integrantes, a classe média vestiu verde e amarelo e ganhou as ruas. O sentimento de frustração continuou crescendo depois da disputa presidencial de 2014, deu lastro ao impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e se acentuou com o avanço da operação que expôs as fraudes na Petrobras.

Personalidades conhecidas sucumbiram à Lava-Jato, entre elas Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que comandou o Palácio do Planalto durante dois mandatos, com popularidade recorde. Condenado a 12 anos e um mês de cadeia por lavagem de dinheiro e corrupção passiva, o petista teve a prisão decretada e se entregou à Polícia Federal no último dia 7, em São Bernardo do Campo (SP). O desfecho dessa história, destaca o professor da Escola de Ciência Política da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), Guilherme Simões Reis, definirá os rumos da eleição e as narrativas da campanha, tanto à esquerda quanto à direita.

— De um lado, teremos candidatos se apresentando como modelos de honestidade, como técnicos, como conciliadores. De outro, teremos postulantes denunciando a perseguição injusta, implacável e seletiva à esquerda, cujo símbolo máximo é Lula  — afirma Reis.

Desde a polêmica em torno da rendição do petista, avalia o cientista político Paulo Baía, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cautela impera em Brasília. Até o deputado federal Jair Bolsonaro (PSL), ícone do anti-petismo, mediu as palavras ao comentar a detenção de Lula no Twitter.

— Todos os pré-candidatos estão muito cautelosos. Ainda não se sabe exatamente qual será a estratégia do PT, e tem um outro fato novo, que é a entrada de Joaquim Barbosa (ex-ministro do STF, filiado ao PSB) na briga, tudo isso em um contexto de informação e contrainformação, com fake news por todos os lados. A única certeza é de que a corrupção será a principal pauta em debate. Os candidatos serão forçados a se posicionar, inclusive sobre a Lava-Jato — avalia Baía.

Os tentáculos da operação deflagrada em Curitiba recaíram não apenas sobre Lula, mas também sobre o atual presidente, Michel Temer(PMDB), e dezenas de outros representantes, turvando o panorama eleitoral. Protegido pelo foro privilegiado, o sucessor de Dilma é alvo de quatro inquéritos no Supremo Tribunal Federal (STF) e viu o cerco se fechar em torno dele no último dia 29, com a prisão temporária de amigos próximos. Para completar o quadro, as delações da Odebrecht envolveram mais de 400 políticos, ligados a 26 das 35 siglas registradas no Tribunal Superior Eleitoral.

Resultado: em 2017, a rejeição ao Congresso atingiu o índice mais alto desde 1993, e Temer tornou-se o mandatário mais impopular no cargo depois de José Sarney (PMDB), que governou o país entre 1985 e 1990. A crise de representatividade se acentuou após o confinamento de Lula e a iminente impossibilidade de sua candidatura, que precisa passar pelo crivo da Justiça Eleitoral. Um indicativo disso, segundo analistas, passa pela última pesquisa Datafolha, divulgada no domingo passado. Sem o petista na disputa, o percentual de brancos e nulos superaria as intenções de voto nos candidatos em primeiro lugar — Bolsonaro e Marina Silva (Rede), tecnicamente empatados à frente. Essa conjuntura obrigará os concorrentes a se adaptarem a uma nova realidade.

— O brasileiro está muito desconfiado. Temos quase dois terços do eleitorado que não têm partido de preferência, ou seja, não se sentem representados, e temos um presidente da República pior avaliado do que os antecessores que sofreram impeachment. Resumindo: não vai ser fácil ser candidato este ano — projeta o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino (leia a entrevista).

Ainda que a taxa de votos brancos e nulos diminua com a proximidade do pleito, outras pesquisas corroboram o cenário de incertezas e indicam mudanças. Segundo estudo da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da Fundação Getulio Vargas (FGV-DAPP) que em 2017 ouviu 1,5 mil pessoas, quase 80% dos entrevistados disseram desconfiar dos políticos eleitos e das siglas. O curioso é que 65% concordaram que votar é mais importante do que protestar e 53,7% afirmaram acreditar que a situação vai melhorar nos próximos cinco anos — o que eleva a pressão sobre a disputa de 2018.

— Muita coisa está convergindo para fazer desta uma eleição muito particular. Há uma descrença aguda, uma fadiga em relação à instabilidade política e à crise econômica. Há o fenômeno crescente da desinformação e o debate extremado nas redes sociais. Mas também há um grande otimismo em relação ao futuro. As pessoas veem o pleito de outubro como uma oportunidade para virar a página — afirma Amaro Grassi, pesquisador da FGV-DAPP e um dos autores da pesquisa “O dilema do brasileiro: entre a descrença no presente e a esperança no futuro“.

A questão é: diante de tamanha expectativa, haverá candidatos capazes de corresponder aos anseios, já que praticamente todos os partidos estão envolvidos em suspeitas? O cientista político Carlos Melo, do Insper (instituição de ensino superior e pesquisa), tem dúvidas.

— Existe espaço na opinião pública, existe desejo de virar a chave, mas se os candidatos forem os mesmos, se continuarem falando as mesmas coisas e agindo como sempre agiram, não há o que fazer, e isso será péssimo, porque vai apartar ainda mais as pessoas da política. O que precisamos é de quadros capazes de mudar a lógica, de colocar uma nova agenda em debate — pondera Melo.

Ser “gestor” já não basta

Professora do curso de especialização em Marketing Político e Propaganda Eleitoral da Universidade de São Paulo (USP) e diretora da WPB Consulting, voltada à gestão de crises, Patricia Teixeira aponta alguns caminhos possíveis. De acordo com a especialista, terão mais chances de superar barreiras aqueles que conseguirem provar idoneidade e forem mais transparentes.

— A grande crise que estamos vivendo é de imagem. A eleição de 2018 será a chance de revermos isso, de voltarmos a falar em princípios éticos, valores, reputação. As pessoas vão querer conhecer de perto os poucos políticos com vida 100% limpa, que sairão em vantagem. Mas eles terão de provar isso. Quem tentar ser o que não é será rapidamente desmascarado — ressalta Patricia.

O que vai definir o sucesso de uma estratégia, na avaliação de Emerson Urizzi Cervi, coordenador do grupo de pesquisa em Comunicação Política e Opinião Pública da Universidade Federal do Paraná (UFPR), será o passado de cada um:

— Todos os candidatos sabem o que os eleitores querem ouvir e vão montar seus discursos em cima disso, inclusive a atual elite política, que já percebeu que o seu ciclo está chegando ao fim. A coerência será determinante. O discurso tem a ver com o que o candidato fez até aqui? Se não tem, vai ser mais difícil convencer. O eleitor vai se perguntar com quem ele está, com quem esteve e, principalmente, o que o sujeito andou fazendo por ele.

Discursos de forte apelo antes podem não ter o mesmo efeito em 2018. É o caso dos candidatos que se dizem “outsiders” ou “apolíticos”. Conforme a CEO do Ibope Inteligência, Márcia Cavallari Nunes, pesquisas recentes indicam que o eleitorado “não busca, necessariamente, alguém de fora da política”.

— O que as pessoas querem é um novo jeito de fazer as coisas, de tratar o eleitor, de gerir o bem público, mas elas não querem um aventureiro. A população tem uma consciência maior em relação ao voto, está mais atenta e não vai se deixar enganar tão facilmente — afirma Márcia.

A narrativa do “candidato gestor”, tão em voga nos últimos pleitos, também pode ter menor repercussão. Para Carlos Melo, a estratégia se tornou batida e não deu o retorno esperado em alguns casos. O professor do Insper cita o prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB), que explorou a imagem de executivo bem sucedido na campanha, mas tem sido criticado.

— Até Dilma se apresentou como gerente lá atrás. O fato desse discurso ter sobrevivido até 2016 é inacreditável. Hoje está claro que qualquer candidato tem de ter boa performance na área de gestão. É um pré-requisito. A questão é que isso já não basta. Doria foi quem teve mais visibilidade com essa fala e hoje boa parte da população está decepcionada. Ele se mostrou um bom político e um péssimo gestor, exatamente o contrário do que prometia — afirma Melo.

Dois temas, dois anseios

Quanto aos temas que tendem a dominar o debate, analistas concordam que o combate à corrupção será um deles, por tudo o que o país passou recentemente. Se em 2011 o assunto era motivo de preocupação para apenas 9% dos brasileiros, no fim de 2017 esse índice saltou para 62%, segundo o Ibope, no topo das inquietudes nacionais — à frente inclusive da saúde, que sempre foi o principal motivo de apreensão.

— Não há dúvidas de que o candidato que conseguir se posicionar como um nome de trajetória limpa terá um bônus — aposta Gil, que já coordenou campanhas no Brasil, na África e em países da América Latina.

Apesar do fastio em relação aos corruptos, a maioria das pessoas ouvidas no estudo da FGV-DAPP deixou claro que “não abre mão de ter o Estado como agente prestador de serviços”, segundo Amaro Grassi. O pesquisador acrescenta:

— Quem passar a mensagem de uma agenda moderna, sem deixar de reforçar o papel do Estado em algumas frentes, poderá se destacar.

Outra temática que tende a ganhar espaço é a segurança pública, principalmente após a intervenção federal no Rio de Janeiro e a escalada da violência nas grandes cidades — o que, paradoxalmente, poderá incentivar oportunistas e discursos com pegada autoritária. O desemprego e a perda de poder econômico também podem ser motes badalados, pela proximidade com a “vida real”, mais, talvez, do que a discussão em torno das reformas e de questões relacionadas às finanças públicas.

Seja qual for o tópico, consultores acreditam que, em parte crescente do universo de votantes, haverá menos tolerância a promessas simplistas, a falas plastificadas pelo marketing e ao populismo barato, embora o risco desse tipo de discurso vingar outra vez continue firme e forte.

— Comunicação política correta envolve entender quais são os anseios da população e ter projetos concretos para tentar resolvê-los. Isso seria o ideal. O que acontece em momentos de crise como o que vivemos, com casos de corrupção aparecendo todos os dias no noticiário e a violência atingindo níveis absurdos, é a ascensão de discursos mais radicais e populistas. Isso sempre é uma ameaça. Mas também é possível que a massa indecisa ou descrente acabe optando por um discurso mais conciliador, mais técnico, de alguém que venha apaziguar os ânimos e apontar uma luz no fim do túnel para a economia, a segurança e a gestão pública, e não o contrário — analisa Gil.

A opinião é compartilhada por Amaro Grassi:

— Teremos uma eleição muito marcada pela radicalização, mas, com base nas nossas pesquisas, tendemos a achar que a agenda que terá maior aderência, no decorrer do processo eleitoral, será uma agenda que fuja dessas características extremas.

O efeito “selfie”

O principal meio de divulgação das ideias continuará sendo a propaganda de rádio e TV. Apesar do avanço da internet, 97,4% dos domicílios têm televisão, enquanto 63,6% contam com acesso à rede, segundo dados do IBGE. A tendência nas telas, conforme Sérgio Trein, especialista em Comunicação Política e coordenador do curso de Publicidade e Propaganda na Unisinos, será a produção de programas mais informais.

— Vamos ver algo que já apareceu na campanha de 2016, mas que agora estará mais presente: o efeito “selfie”, que é a tentativa de adotar uma perspectiva menos produzida da realidade, menos engessada. É uma forma de mostrar o candidato quase como um não candidato, como se não houvesse uma equipe por trás. Se isso vai colar desta vez, ainda é cedo para dizer — afirma Trein.

Apesar das incertezas envolvendo os meios tradicionais de comunicação, a grande incógnita de 2018 é digital. Uma das dúvidas é até que ponto assuntos levantados na internet poderão, de fato, ultrapassar as telas dos smartphones e pautar debates reais, talvez alterando os rumos do pleito.

Coordenador do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo (Labic-UFES), Fábio Goveia lembra que esta será a primeira eleição no Brasil desde que a influência dos bots — os perfis-robôs — se tornou conhecida nas redes sociais e desde que as fake news assumiram proporções alarmantes. Também será a primeira votação em meio à polêmica global sobre a utilização de dados privados de usuários do Facebook — que pode ter contribuído para a vitória de Donald Trump nos EUA e do Brexit no Reino Unido. O Brasil, diz Goveia, não está livre disso:

— Toda a discussão em torno do Facebook nas últimas semanas é um sintoma claro de que existe uma preocupação real em relação à potência da internet e de que é preciso ter especial atenção a ela durante os processos eleitorais. O Brasil é mais uma das democracias que têm de aprender a lidar com esse novo modo de fazer política.

WhatsApp, Twitter, Instagram e Facebook serão terrenos férteis para as notícias falsas e a polarização dos discursos. As equipes de marketing terão de estar preparadas para corrigir informações distorcidas na velocidade de propagação da desinformação. Ao mesmo tempo, candidaturas que forem flagradas difundindo conteúdos inverídicos correrão o risco de sofrer críticas — embora muita gente compartilhe textos mentirosos conscientemente.

— As campanhas terão de lidar com esse mundo da boataria digital. Teremos as fake news e também as junk news, que são as notícias antigas requentadas. Esse é um fenômeno que não poderá ser ignorado, e a transparência será o melhor remédio. Os candidatos serão obrigados a se posicionar muito claramente, sem contar tantas mentiras, porque a imprensa, as agências de checagem e as campanhas adversárias estarão em cima _ avalia Goveia.

Outra novidade deste ano serão os posts impulsionados, agora permitidos pela legislação eleitoral. Isso significa que os candidatos poderão pagar para ter sua mensagem enviada a milhares de usuários nas redes sociais, de forma “cirúrgica”. Quanto mais recursos injetarem, mais refinada será a distribuição do material, podendo atingir públicos específicos, com discursos feitos sob medida.

— Antes, as campanhas gastavam com robôs para garantir o maior número de likes possíveis e impulsionar seus posts de forma orgânica. Agora, quem tiver mais dinheiro vai poder impulsionar os posts automaticamente e de forma direcionada, o que deverá provocar um desequilíbrio na disputa. Esses candidatos vão conseguir falar para determinado público exatamente o que esse público quer ouvir. O impacto será enorme. Só não sabemos ao certo como o Facebook vai lidar com isso, porque o dono da bola ainda não disse quais serão as regras do jogo — explica Goveia.

Para o diretor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília (UnB), Fernando Oliveira Paulino, será fundamental que imprensa, Justiça Eleitoral e instituições de educação “desenvolvam atividades para estimular o público a discernir conteúdos”, de forma a evitar o repasse de fake news “em uma disputa feroz por atenção”.

— Um ponto que me parece fundamental é que um candidato pode até enganar o público por um tempo utilizando as ferramentas disponíveis na internet, mas condições tecnológicas que levam ao engano com notícias incorretas também possibilitam, como nunca antes, a checagem do que é publicado. A tecnologia prova não ser necessariamente boa ou má. O que muda é o uso — afirma Paulino.

Respostas imediatas

Os perigos que rondam a corrida eleitoral prestes a começar são reais. Além dos riscos listados acima, uma das ameaças iminentes, na avaliação de Amaro Grassi, é a extensão da crise.

— A expectativa criada sobre a eleição dá margem a uma nova decepção logo à frente. As pessoas vão querer respostas imediatas de quem se eleger, mas a gente sabe que as coisas não vão se resolver de uma hora para outra. A possibilidade de frustração é muito grande e tem potencial para postergar ainda mais o fim da crise — analisa Grassi.

O resultado pode ser ainda pior, se a massa de eleitores descrentes disposta a anular o voto ou a votar em branco não se identificar com algum candidato até outubro.

— Como na nossa legislação só contam os votos válidos, quando o índice de brancos e nulos é muito alto, tendem a ter maior expressão candidatos com discursos mais radicais para um lado ou para outro, gente que, de outra forma, provavelmente não teria o mesmo alcance — alerta Gil Castillo.

Também não se descarta a possibilidade de surgir um novo “salvador da pátria”, travestido de neopopulista — a exemplo do que ocorreu em 1989, com a escolha de Fernando Collor de Mello — ou de alguém que faça promessas que não conseguirá cumprir, gerando ainda mais instabilidade.

— Desde o impeachment de Dilma, uma parte da sociedade acha que afastar presidente é como fazer desfile de Carnaval. Ou seja: que dá para fazer a cada ano. Isso é muito grave _ alerta Carlos Melo.

 

Juliana Bublitz

Fonte: Política / Gaúcha ZH

PM de governo comunista ordenou ‘fichamento’ de opositores políticos

Memorando emitido em 6 de abril pelo Comando de Policiamento do Interior (CPI) da Polícia Militar do Maranhão determinava que as unidades subordinadas deveriam realizar o chamado “levantamento eleitoral” dos membros da oposição aos governos municipais e do estado

Um ataque à Constituição é como se pode resumir a ordem que partiu da Polícia Militar do Maranhão para monitorar membros da oposição aos governos municipais e estaduais. Um memorando que foi emitido em 6 de abril pelo Comando de Policiamento do Interior (CPI) determinava que as unidades subordinadas deveriam realizar o chamado “levantamento eleitoral” em caráter de urgência. A situação é agravada pelo fato de que o governador do Estado, Flávio Dino (PCdoB), é candidato à reeleição.

O documento, segundo o procurador Regional Eleitoral do Maranhão Pedro Henrique Castelo Branco, “não observa direitos fundamentais presentes na Constituição, que garantem a liberdade de manifestação e de expressão, bem como o livre exercício da convicção política”. O Ministério Público Eleitoral no Maranhão instaurou um Procedimento Preparatório Eleitoral para apurar a conduta da PM do estado, a qual pode ser considerada abuso de autoridade “por uso desviado ou indevido de poder conferido a agente público em favor de um candidato ou partido político”.

O primeiro memorando que veio a público é de 19 de abril, assinado pelo Comando de Policiamento do Interior de Barra do Corda, o qual determina a identificação de lideranças da oposição que pudessem “causar embaraços no pleito eleitoral”. Segundo a imprensa local, o documento trazia a assinatura de Antônio Markus da Silva Lima, chefe do Comando de Policiamento de Área de Barra do Corda que, em entrevista ao jornal maranhense O Estado, negou envolvimento no caso.

Este documento, entretanto, era uma resposta a um memorando de 06 de abril, assinado, segundo a SSP, pelo tenente-coronel Emerson Farias Costa, subchefe do Estado Maior do CPI. Nele, solicitava o levantamento de dados eleitorais, o qual incluía, entre as informações complementares, quem faz oposição aos governos locais ou estadual.

Ainda não se sabe de quem partiu, inicialmente, a ordem para o levantamento de informações. O comando geral da Polícia Militar do Maranhão expediu um ofício na sexta (20) afirmando que as notas foram emitidas sem o conhecimento e a autorização do comando da instituição. Neste mesmo ofício, o comandante geral da PM, Jorge Luongo, também determinou que as solicitações contidas nos memorandos fossem desconsideradas por serem ilegais e sem valor.

A Secretaria de Segurança Pública e o governador Flávio Dino alegaram que também não estavam envolvidos. “Absurdo imaginar que um papel assinado por um oficial da PM possa ter a minha orientação, apoio ou concordância. Ao tomar conhecimento, mandei demitir o autor do papel disparatado”, tuitou o governador Flávio Dino na sexta (20). Até o momento, dois oficiais já foram exonerados dos cargos de comando, mas seus nomes não foram revelados pela Secretaria de Segurança Pública.

“A organização do policiamento das eleições será feita no momento correto, sob demanda e orientação do Tribunal Regional Eleitoral”, afirmou em nota a Secretaria de Segurança Pública, que abriu uma sindicância para apurar a responsabilidade sobre os documentos ilegais. O encarregado pela apuração, que deve ser concluída em 30 dias, será o coronel Antonio Roberto dos Santos Silva.

Tentativa de espionagem

Na assembleia legislativa do Maranhão, os partidos de oposição estão se organizando para fazer um pedido de intervenção federal para as eleições de outubro no estado, segundo informou a assessoria de imprensa do deputado Sousa Neto (PRP). A assunto será levado à pauta da sessão que ocorre hoje na Casa. Ainda não há uma ideia clara de como se daria essa intervenção federal, se por meio da força nacional ou do exército.

Para eles, o governo comunista de Flávio Dino está usando a Polícia Militar como instrumento para perseguição política. “É preciso dar um basta a esse tipo de prática que já beira a insanidade. Um governador deve ter é o controle dos atos de seu governo – que está precisando e muito – e não das ações de seus opositores políticos”, criticou o deputado eduardo Braide (PMN). Já a deputada estadual Andrea Murad (PRP) alertou para o fato de os “abusos se tornarem mais intensos nestas eleições majoritárias se os órgãos competentes não tomarem medidas extremas para coibir a prática”.

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Se a prática for comprovada, a legislação eleitoral, segundo o MPE, prevê que tanto os responsáveis pela conduta ilícita, como também os candidatos beneficiados, podem sofrer sanção de cassação do registro ou diploma.

Para Daniel Falcão, advogado e professor da USP (Universidade de São Paulo) e do IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), caso seja comprovado que houve intenção de monitoramento dos opositores ao governo estadual, trata-se de uma situação gravíssima, porque envolve o uso de recursos públicos para uma suposta espionagem.

“Se isso realmente ocorreu é absolutamente grave. Não se pode fazer espionagem e muito menos com recursos públicos. Isso viola a intimidade das pessoas, a honra, e viola os artigos da Constituição que tratam sobre a administração pública, que diz que qualquer atividade da administração pública deve levar em conta a impessoalidade. Quando há espionagem envolvida, ela está atendendo ao interesse pessoal de alguém”, explicou o professor.

Falcão ponderou que, apenas com base nos memorandos que se tornaram públicos, não é possível afirmar que tenha ocorrido espionagem, mas salientou que não está claro qual seria o objetivo da Polícia Militar a partir das ordens contidas nesses documentos. “A PM precisa explicar o que está acontecendo. É muito esquisito”.

O caso lembra algo que era corriqueiro durante a ditadura militar no Brasil. Falcão citou o SNI (Serviço Nacional de Identificação), criado em 1964 que tinha como uma de suas funções manter uma espécie de cadastro dos opositores ao regime.

  • Isabella Mayer de Moura

Fonte: Gazeta do Povo

 

Medo de escândalos inibe doações de eleitores

O medo de ter o nome associado a um escândalo de corrupção e o atual cenário de crise econômica devem fazer com que executivos e funcionários de grandes empresas evitem apoiar financeiramente um candidato. “Pelo que eu tenho conversado, os acionistas e executivos de grandes empresas não estão dispostos a participar desse processo”, disse o presidente da Confederação Nacional de Indústrias (CNI), Robson Andrade.

Segundo ele, escândalos como a Operação Lava Jato farão com que muita gente deixe de contribuir. “O problema todo é que as pessoas físicas não querem participar de um financiamento de campanha que, no fundo, você não sabe direito de onde vêm todos os recursos.”

A doação de empresas foi proibida pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2015. As novas regras começaram a valer nas eleições municipais de 2016, mas esta será a primeira disputa presidencial com a restrição.

Segundo a advogada Sylvia Urquiza, especializada na área criminal e de compliance, a preocupação com as doações eleitorais de funcionários é uma prática antiga entre as multinacionais. Na maioria dos casos, regras de conduta interna costumam regular este tipo de assunto. Com as investigações da Lava Jato e o receio de ter seu nome associado a um candidato de conduta duvidosa, as companhias nacionais passaram a aprimorar seus sistemas de controle. “Entre as grandes empresas, porém, o número das que já se adequaram está aquém do que seria esperado”, diz Silvia.

“As empresas estão aprendendo com a dor”, completa Rodrigo Brandão Fontoura, diretor da Associação Brasileira de Integridade, Ética e Compliance, sobre o temor com um eventual contágio da Lava Jato.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Fonte: Revista Isto É

Ex-ministro do TSE: impeachment de Dilma foi ruptura democrática

Nomeado pelo ex-presidente Lula para compor o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no cargo de ministro substituto, o advogado Joelson Costa Dias ocupou vaga na corte entre 2009 e 2011. Ex-secretário da Comissão Nacional de Relações Internacionais do Conselho Federal da OAB, integrou a lista tríplice dos advogados candidatos a uma vaga no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após aprovação no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF). Em passagem por Fortaleza, na semana passada, para participar de evento de aniversário dos 30 anos da Constituição de 1988, o ex-ministro conversou com O POVO e fez reflexões sobre democracia, direitos fundamentais e situação política do Brasil.

 

O POVO – Como foi sua trajetória até chegar ao Tribunal Superior Eleitoral?

Joelson Dias – Sou advogado com atuação nos tribunais superiores em Brasília. Antes, fui servidor concursado do TSE, do qual tive depois que me afastar por conta da incompatibilidade que isso resultava com a advocacia. Fui também servidor concursado da Câmara Legislativa do Distrito Federal — fui procurador — e também procurador da Fazenda nacional. De todos esses cargos públicos eu me afastei justamente pela incompatibilidade com a advocacia, ou pela minha preferência por apenas advogar. Tive também algumas missões internacionais, ou com a OEA (Organização dos Estados Americanos), ou com a ONU (Organização das Nações Unidas). Fiz mestrado em Direito no Exterior, na Universidade de Harvard, e tive, com muita honra, assento no TSE de 2009 a 2011 como um dos ministros substitutos.

O POVO – Como foi a experiência no TSE?

Joelson – Digo que isso deveria ser como um serviço militar da advocacia, que todos — se, claro, tivéssemos lugares nos tribunais —pudéssemos, advogados e advogadas, ter essa experiência de atuação profissional no âmbito da própria Justiça para compreender melhor a administração, o funcionamento, as dificuldades, os desafios que passam juízes e juízas nessa atuação de julgar. Foi uma experiência que me honrou muito porque é uma escolha feita pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Você constar numa lista dessa, ser candidato a uma dessas vagas, já é um reconhecimento profissional que muito me honrou e depois o próprio exercício na Justiça Eleitoral, onde eu milito e atuo há tanto tempo, foi uma oportunidade única.

O POVO – Qual o grande desafio hoje do TSE?

Joelson – Eu acho que o grande desafio é se manter muito fiel ao que a Constituição reclama. Como a atuação da Justiça Eleitoral, que se manteve muito fiel à legislação eleitoral e, dentro da autocontenção que se espera desses tribunais superiores, principalmente daqueles que lidam com questões constitucionais, atuar com efetividade, eficácia. Mas sem incorrer no chamado ativismo judiciário, sem essa expectativa de atender o que cada vez a gente ouve mais, o chamado clamor popular. As cortes, e é assim que a Constituição quer — porque os juízes não são eleitos, diferentemente dos nossos parlamentares —, precisam agir com muita autocontenção. Sejam firmes na aplicação da lei, naquilo que a Constituição espera, mas, ao mesmo tempo, com muito comedimento, moderação, para que a gente não tenha uma violação da separação dos Poderes. Mas, mais importante do que isso, para que a soberania popular, representada no parlamento, possa ser efetivamente respeitada. A Justiça Eleitoral tem papel muito importante, porque a Constituição, mais do que o respeito às regras do jogo, à legalidade, quis que as eleições fossem conduzidas também com muita legitimidade, dentro da mais absoluta normalidade, dentro da mais absoluta regularidade. Muitas vezes, as pessoas não entendem o papel da Justiça Eleitoral quando cassa determinado mandato, quando indefere determinado registro, quando afirma determinada inelegibilidade. A Justiça Eleitoral sempre fez isso com muita moderação, comedimento. Deixou para cassar os mandatos somente naqueles casos mais graves e fica assim nossa expectativa, que a Justiça Eleitoral continue exercendo bem o seu papel, gozando da credibilidade perante a sociedade.

O POVO – Em junho do ano passado, o TSE esteve nas manchetes dos meios de comunicação no País após negar a cassação da chapa Dilma-Temer em ação impetrada pelo PSDB. A decisão foi justa?

Joelson – Eu acho que o TSE tomou a decisão que entendeu adequada naquela situação. Foi uma decisão por maioria, muito debatida. São argumentos legítimos de ambos os lados. Claro que tem muita crítica à decisão tomada pelo TSE, mas, enfim, os ministros que compuseram a maioria da Corte lançaram seus argumentos. Me pareceu um momento importante para a nossa democracia, porque é um momento de funcionamento da Corte, de reflexão, de debate. Estamos vivendo uma crise política, um momento de instabilidade política. A gente não esperava mais que isso acontecesse depois da Constituição de 1988, porque, até o impeachment da presidente Dilma (Rousseff), a gente tinha o maior momento de estabilidade política em toda a nossa história republicana. O que tínhamos antes (da Constituição de 1988) era regime de exceção, ditadura, ameaça, golpes, presidentes que não tomaram posse. A gente esperava muito, com a Constituição de 1988, que a gente conseguisse evitar esses sobressaltos, essas rupturas políticas. Mas o impeachment, para mim, com todo respeito à opinião contrária, foi sim uma ruptura democrática. Viemos de eleições muito democráticas, um debate amplo. Claro que foi uma eleição muito concorrida. A presidente Dilma ganhou com pequena margem de votos, mas foi o que a eleição, depois de muito debate, muita crítica, teve de resultado. Por conta do acirramento, o povo votou de forma muito consciente num ou noutro candidato. Por isso que não me parecia reunir ali, na época do impeachment, todas as condições para que se pudesse remeter àquilo que a soberania popular expressou nas eleições de 2014. Claro que num momento de ruptura como esse, que muitas pessoas não veem com legitimidade, tudo a partir daí vem sendo contestado. O acirramento vem aumentando e está justamente nisso o risco, o perigo para a nossa democracia. Se algum dos lados, qualquer que seja ele, não se sente representado, legitimado, não vê os seus argumentos ouvidos, tomados efetivamente em consideração antes de deliberarmos, significa que esse lado que assim se sente não reconhecerá as decisões, o próprio processo. E isso só aprofunda uma eventual ruptura política no mais absoluto contraste, desarmoniza com aquilo que a nossa Constituição tão cidadã, tão garantista de 1988 quer, que é um Estado democrático de direito, uma democracia funcionando na mais absoluta plenitude, intensidade.

O POVO – Foi um golpe parlamentar, como defendem setores da sociedade?

Joelson – Eu não quero reduzir essa complexa discussão ao vocábulo “golpe”. Quero dizer que uma série de fatores acabou por contribuir com o processo de impeachment. O impeachment não resulta só da deliberação do parlamentar. É uma série de fatores que, no meu entendimento, reclama uma análise. Levará muitos anos até que a gente possa melhor examinar todo esse processo. Foi se desqualificando, se deslegitimando todo o processo político-eleitoral de 2014, da vitória da presidente Dilma nas urnas, até que essas condições alcançassem no parlamento o número de votos suficientes para o impeachment. No meu entendimento, o que havia na época era uma discussão política. Ao que tudo indica, com as chamadas pedaladas fiscais, havia mesmo lá uma forma diferente de contar com os recursos dos bancos públicos para a realização de políticas públicas — o que não deixa de ser uma questão política, uma forma diferente de gerenciar o orçamento, talvez em detrimento dos bancos, do sistema financeiro internacional. O que se deve priorizar no orçamento? As políticas públicas ou o pagamento dos encargos da dívida? As políticas públicas ou o sistema financeiro internacional? São questões políticas. Cada um tem a sua opinião. Me parece que tudo isso fora discutido antes e durante as eleições de 2014, e é justamente por isso que digo que houve uma ruptura, porque aquilo que era político deveria ter permanecido político, uma discussão das urnas. Que se fizesse uma oposição firme e engajada, como a Constituição também quer, para que, nas eleições agora de 2018, depois de muito debate, o eleitor pudesse fazer as suas escolhas. Quem sai vencido das urnas de 2014 não se conforma com o resultado e acaba por criar as condições políticas que resultaram no impeachment. Claro que havia uma situação econômica agravada. O que a Constituição espera, e justamente por isso nós temos uma Constituição, é que as instituições possam continuar funcionando, mesmo em momentos de muita tensão política, de crise econômica. Não me parece razoável que aquele que assuma o poder, como a gente vê em alguns países, crie todas as condições para se perpetuar no poder. Mas também não é razoável que a oposição, depois de eleições legítimas e democráticas, acabe por criar condições de deslegitimação desse eleito — o que de certa forma fica até mais fácil quando uma crise econômica também se apresenta. Com isso, ao invés da gente seguir o fluxo normal, governo e oposição, de uma eleição para outra, a gente se vê agora nesse momento de tanto acirramento, de extremismos, porque, claro, um dos lados se sente prejudicado pela maneira de já não estar mais no poder e é esse o maior risco para a nossa democracia. Se um dos lados, qualquer que seja ele, não vê como legítimo, o sistema pode perder a sua credibilidade.

O POVO – A “ruptura democrática”, de que você fala, acabou fragilizando a democracia no País? Houve o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL), os tiros de arma de fogo em um dos ônibus que fazia a caravana com o ex-presidente Lula no Sul do País.

Joelson – Eu acho que a análise daquilo que se constituiu o impeachment da presidente Dilma Rousseff e daquilo que eu chamo de uma ruptura democrática se faz muito necessária justamente por conta de todo o acirramento que vimos depois desse processo. Nós queremos um ambiente em que as ideias possam ser enfrentadas da maneira mais democrática possível, em que todos se sintam contemplados nas exposições de suas ideias. Dificilmente alcançaremos consenso na maior parte das questões da sociedade. Por isso que é tão importante o debate. Fora da política, que é debate, troca de ideias, persuasão, não há outra alternativa, senão a força. Foi isso que nos mostraram os nossos regimes ditatoriais. Nós caminhávamos muito bem, com todas as dificuldades, na consolidação da nossa democracia, no fortalecimento das nossas instituições democráticas. Por isso que é tão grave para a democracia que os fins, quaisquer que sejam eles, possam justificar os meios. Isso pode sacrificar direitos, isso pode sacrificar as nossas garantias, a nossa Constituição. Todos esses fatos de violência, de qualquer lado, todo esse discurso do ódio, incitação ao crime, que vemos principalmente nas redes sociais, toda essa discussão que hoje lamentavelmente se resume à atribuição de rótulos, as pessoas não mais aprofundam debate, não se dão mais ao trabalho de tentar persuadir uma à outra, apenas impõem um rótulo e, com isso, se retiram do debate ou querem impor pela força suas ideias, tudo isso é muito lamentável. Se a gente não consegue resolver, isso só tende a se agravar, desmotivar mais ainda as pessoas da sua participação na política. Se ficam os fortes, aqueles que querem fazer prevalecer pela força os seus argumentos, o regime perde a integridade, a legitimidade. O regime, mais do que efetivamente ser legítimo, precisa parecer legítimo, as pessoas precisam se sentir contempladas quando expõem seus diferentes pontos de vista. Por isso que é tão condenado o discurso do ódio, a violência. Esses atos fascistas que já começamos a ver, vez ou outra, que querem tolher a manifestação, a liberdade de expressão.

O POVO – O general Eduardo Villas Bôas, comandante do Exército, declarou recentemente que militares estariam atentos “às suas missões institucionais” no País — o que levou a interpretações de ameaça de um possível novo golpe no Brasil. O senhor crê nesse risco?

Joelson – Eu acho que isso deve ser veementemente condenado. Basta lermos os livros de história, as biografias para saber como os regimes de exceção foram graves com consequências absolutamente danosas para o País. Mais do que o sacrifício da democracia, das instituições do Estado Democrático de Direito, sacrificou vidas mesmo. As pessoas eram torturadas, desaparecidas, mortas, caladas pela força por conta das suas diferenças de ideias. A própria intervenção (no Rio de Janeiro) já é absolutamente questionada sobre se todos os requisitos estavam ali presentes. Mas, enfim, independente dessa drástica medida que é a intervenção, nós não podemos tolerar qualquer proposta de retrocesso nas nossas garantias, nos nossos direitos, na nossa democracia. O Brasil precisa muito melhorar as suas instituições, mas isso não significa dizer que a gente possa condenar a nossa democracia. O que temos como desafio é envolver a sociedade, garantir esse direito à participação popular para juntos encontrarmos as melhores medidas para aperfeiçoar a nossa democracia. Não podemos permitir que mais uma vez se queira calar pela força as opiniões divergentes.

O POVO – Os direitos institucionais dos brasileiros estão ameaçados?

Joelson – A corrupção, a improbidade administrativa, o abuso de poder devem ser veementemente condenados. Quem se envolve em ilícito deve ser investigado, responsabilizado e, se comprovada a sua culpa, punido. Mas nós não podemos com isso sacrificar o nosso sistema de garantias. Só se justificam as condenações, se elas forem aplicadas exatamente como quer a nossa Constituição, com a mais ampla defesa, com o contraditório, com os recursos que cada acusado tem direito de apresentar. É claro que tem que se combater a impunidade, é claro que, se os recursos são protelatórios, temos que discutir melhor o nosso sistema recursal, para termos certeza de que não resultará em prescrição, em impunidade. Não podemos justificar o combate à corrupção sacrificando garantias, aquilo que nosso constituinte nos deu de mais relevante, que são nossas garantias contra o arbítrio, a força do Estado. Nós saímos de um momento de exceção, de ditadura em que as pessoas eram caladas pela força, pelas armas, e o nosso constituinte de 1988 nos presenteou com um sistema de garantias que não impede que as pessoas sejam investigadas, não impede que as pessoas sejam responsabilizadas. Faz com que as instituições funcionem, que a acusação possa apresentar a sua denúncia, mas que os acusados tenham condições de apresentar os seus recursos para que, ao final, se alcance o que é mais importante ao invés de um mero justiçamento, de uma mera retaliação, vingança, que se alcance o que a Constituição quer, que é justiça.

O POVO – No início da entrevista, o senhor falou em ativismo judicial. Esse tipo de prática está muito presente nos tribunais, como Supremo Tribunal Federal, Superior Tribunal de Justiça, no TSE?

Joelson – Isso tem acontecido. Os nossos principais doutrinadores, especialistas em Constituição, têm nos demonstrado como os tribunais têm avançado nesse ativismo. Mas, mais importante do que o ativismo, é que os tribunais não podem transparecer como se estivessem ali a atuar nesse ativismo. E isso por força do que a própria Constituição diz. A atuação dos tribunais é muito legítima, até mesmo quando declara a inconstitucionalidade de uma lei, aprovada antes pelo parlamento. É legítima, porque foi a própria Constituição que quis que os tribunais existissem e tivessem competência até mesmo para declarar a inconstitucionalidade de uma lei votada antes pelo parlamento. Mas por que é importante essa autocontenção dos tribunais? Por que se denuncia tanto, quando se evidencia determinado ativismo judicial? Por uma questão bem simples: porque a nossa Constituição quis que os parlamentares fossem eleitos, os nossos governantes fossem eleitos, mas não os nossos juízes. E se os nossos juízes não são eleitos, deve prevalecer, pelo menos em princípio, o que decidem nossos parlamentos, porque as decisões dos nossos parlamentos revelam a manifestação da soberania popular. A Constituição quis que o poder estivesse no povo, na chamada soberania popular. Por isso, nas questões mais complexas, nos momentos mais difíceis, o que se busca ou se deveria buscar, ao invés de um ativismo dos tribunais, é incrementar as condições de participação popular. Para os eleitores poderem se fazer cada vez mais presentes, para cobrar, fiscalizar, exigir dos seus parlamentares a tomada de decisões rápidas, naquilo que se faz necessário, ou com muita tranquilidade, para amadurecimento de questões mais difíceis, porque a ansiedade muitas vezes não se justifica em questões mais polêmicas.

O POVO – Como o senhor enxerga a minirreforma eleitoral e as mudanças que, iniciadas em 2016 nas eleições municipais, incidem sobre a eleição presidencial?

Joelson – No meu entendimento, as sucessivas reformas eleitorais que vêm sendo feitas desde a lei 9.504/97, lamentavelmente, apesar de todo o esforço do parlamento, têm significado severas restrições à propaganda eleitoral, ao financiamento de campanha e, com isso, também grave retrocesso para o nosso regime democrático. A propaganda foi cada vez mais limitada, sob a alegação de que isso era para reduzir gastos de campanha, e os dados evidenciam justamente o contrário. Por mais que limitassem ou proibissem, os gastos de campanha se elevavam. Encurtou-se o tempo de campanha para 45 dias, o tempo de campanha na TV e no rádio para 35 dias. Tudo isso, no meu entendimento, acaba por favorecer quem já é detentor de mandato eletivo ou quem, por conta de uma atividade profissional, tem maior tempo de exposição à mídia. Em tão curto tempo de campanha e com tantas restrições, aqueles novos candidatos não têm a mesma exposição e tempo de apresentar suas propostas. Nesse aspecto me parece que a reforma foi prejudicial à igualdade de condições. Estamos em uma ansiedade, querendo reformar o nosso sistema político-eleitoral a cada dois anos, de uma eleição para outra. Sempre temos feito as propostas querendo que essas mudanças sejam logo aprovadas sem discutir principalmente quando são propostas importadas, vindas de outros países. Como é que isso tem funcionado? Quais as críticas a essas propostas nos países em que já funcionam? O sistema de financiamento que dependia ou que autorizava que as empresas doassem para campanhas, claro que merecia alguns ajustes. Mas talvez só alguns ajustes, e não necessariamente pôr fim ao sistema, como o Supremo entendeu colocar. É bom que se diga isso: o STF, pelo menos no meu entendimento, quando proibiu as doações de pessoas jurídicas nas campanhas, não me parece que tenha proibido em definitivo esse tipo de doação. Quis dizer apenas que, naquele momento, aquele modelo antigo não funcionava. Me parece que há espaço ainda para se ajustar. Por exemplo, ao invés de um percentual de 2% sobre o faturamento, pensar um valor em espécie, faixas de contribuições segundo o tamanho das empresas. Pessoas físicas acabam, enfim, não participando como se espera delas. É preciso criar as condições para que as pessoas aumentem a sua participação na política, inclusive as suas contribuições financeiras. Não existe critério na legislação de como se distribuir o fundo partidário e os partidos acabam por concentrar esses critérios justamente naqueles candidatos que se consideram mais viáveis. Ou seja, tirando de candidatos mais novos os recursos, o tempo de rádio e TV tão necessários à divulgação das suas campanhas. Por isso que os recursos de pessoas físicas e de empresas davam a esses candidatos maior oportunidade. O que a gente precisa combater não é propriamente o financiamento das empresas. A gente precisa combater é essa relação espúria que as empresas às vezes têm com o Poder Público e vice-versa, independente da campanha. Mas isso não significa que devêssemos condenar por inteiro todas as contribuições.

TSE

ESTRUTURA. O Tribunal Superior Eleitoral é composto por 14 ministros, sendo sete efetivos e a outra metade, substituta. Entre os titulares, estão divididos o(a) presidente, vice-presidente e corregedor(a).

Composição

INDICAÇÕES. Três ministros são eleitos entre os membros do Supremo Tribunal Federal (STF); dois entre os membros do Superior Tribunal de Justiça (STJ); dois são nomeados pelo presidente da República, escolhidos entre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo STF.

Mandato

RECONDUÇÕES. Cada ministro é eleito para um biênio, sendo proibida a recondução após dois biênios consecutivos. A rotatividade dos juízes no âmbito da Justiça Eleitoral visa manter o caráter apolítico para garantir a isonomia nos processos eleitorais. Atua perante a Corte, ainda, o procurador-geral eleitoral.

Wagner Mendes

Fonte: Jornal O Povo

Como pesquisa eleitoral com 2 mil pessoas indica o voto de 146 milhões

Uma pessoa adulta tem entre cinco e seis litros de sangue. Mesmo assim, os médicos conseguem descobrir doenças como a anemia extraindo alguns poucos mililitros de um paciente – em um exame como o hemograma.

A analogia acima se aplica às pesquisas eleitorais e de opinião: com os métodos certos, é possível conhecer o pensamento e as tendências em um grupo tão grande quanto os eleitores brasileiros (146 milhões de pessoas, segundo o Tribunal Superior Eleitoral) a partir de entrevistas com uma pequena parte deste contingente – amostras de 2 mil pessoas ou até menos.

Com as eleições de outubro se aproximando, as pesquisas (principalmente as eleitorais) se tornarão cada vez mais comuns. Os levantamentos dos institutos de pesquisas, porém, vão muito além da disputa pela Presidência da República: são usados também para conhecer tendências de opinião das pessoas sobre determinados temas e para planejar estratégias de marketing das empresas.

Em eleições acirradas, é comum que candidatos e militantes ataquem o resultado de pesquisas eleitorais (especialmente quando se saem mal). Mas não se deixe enganar: políticos, marqueteiros e partidos conhecem o valor das pesquisas para entender e se posicionar da melhor forma durante a disputa, e muitas vezes encomendam suas próprias pesquisas antes de tomar decisões.

“Para os partidos políticos e candidatos, os resultados das pesquisas são fundamentais para as decisões estratégicas das campanhas eleitorais, desde a definição do melhor candidato ou coligação partidária até a avaliação da forma de se comunicar com o eleitor”, conta Danilo Cersosimo, diretor do instituto de pesquisas Ipsos.

Mesmo assim, é possível que você nunca tenha respondido a uma pesquisa eleitoral e talvez não conheça ninguém que tivesse participado desses levantamentos. Então, como confiar que os resultados são verdadeiros?

No fim das contas, pesquisas eleitorais tentam “prever” o que vai acontecer quando chegar o dia da votação. E a evidência existente até agora é de que, na maioria das vezes, os levantamentos são bem sucedidos nesta tarefa, principalmente quando são realizados mais perto da data do escrutínio.

Em fevereiro do ano passado, por exemplo, cientistas políticos da Universidade de Houston (EUA) verificaram que pesquisas feitas duas semanas antes da votação conseguiram acertar o resultado de 10 entre 11 eleições em países latino-americanos, entre 2013 e 2014 (uma eficácia de 90,9%).

Um resultado similar aparece em um levantamento do site de notícias jurídicas Jota, que considerou 3.924 pesquisas eleitorais brasileiras nas eleições nacionais de 1998 a 2014.

Por fim, é possível que durante a campanha surjam textos nas redes sociais mencionando “pesquisas” que não existem, para favorecer este ou aquele candidato. Para saber se uma pesquisa foi realmente feita ou não, basta consultar o TSE. Todas as pesquisas confiáveis feitas no país estão registradas neste banco de dados da Justiça Eleitoral.

A BBC Brasil conversou e enviou questionamentos por e-mail a diretores de três grandes institutos de pesquisas com atuação no Brasil (Ibope, Datafolha e Ipsos) para entender como são feitos estes levantamentos.

Como é feita uma pesquisa?

Primeiro, os pesquisadores definem uma amostra que seja representativa do grupo a ser pesquisado, usando dados públicos. O objetivo é escolher um número limitado de pessoas, cujas características sejam parecidas com a do grupo maior que se queira pesquisar (que os estatísticos chamam de universo).

Para que a pesquisa esteja correta, a amostra precisa corresponder ao universo dentro de alguns critérios (escolaridade, idade, gênero, etc). Esses critérios são chamados de variáveis. Por exemplo: os últimos dados do TSE mostram que52,4% dos 146,4 milhões de eleitores brasileiros são mulheres. Portanto, uma amostra de 2.000 eleitores deverá ter 52,4% de mulheres (1.048 eleitoras).

“A amostra deve ser uma reprodução do universo a ser representado, com as mesmas proporções de segmentos sócio-econômicos”, diz o diretor do Datafolha, Mauro Paulino. E como escolher exatamente os locais do país em que serão aplicados os questionários? “São sorteadas cidades de pequeno, médio e grande porte nas mesorregiões (recortes dentro de cada Estado) definidas pelo IBGE”, explica Paulino. É que a proporção de moradores de capitais ou de cidades do interior também é considerada na formação da amostra.

As variáveis levadas em conta mudam de instituto para instituto e de acordo com o objetivo do levantamento. “Quanto mais as variáveis escolhidas estiverem relacionadas com o objeto do levantamento, melhor será a amostra”, diz a diretora do Ibope Márcia Cavallari. No caso do Ibope, as variáveis consideradas geralmente são as de gênero, faixa etária, escolaridade e ramo no qual a pessoa trabalha (ou se é desempregada).

Depois de calculada a amostra, é preciso fazer as entrevistas com as pessoas que preencham aqueles critérios.

Cada instituto de pesquisa tem a própria forma de fazer isto: o Ibope determina a área em que o entrevistador fará a pesquisa usando os chamados “setores censitários” definidos pelo IBGE (isto é, a mesma divisão do território usada no Censo brasileiro). A vantagem disto, diz Cavallari, é poder saber exatamente onde cada entrevista ocorrerá – o pesquisador é enviado a uma área contínua, situada em um único quadro urbano ou rural.

“A partir daí, o entrevistador vai percorrer esse território (o do setor censitário) até preencher todas as entrevistas que estavam designadas para ele”, diz Cavallari.

Já o Datafolha usa outra metodologia, baseada nos chamados “pontos de fluxo”: os pesquisadores são mandados a locais fixos, e entrevistam os passantes.

Segundo Mauro Paulino, o Instituto têm mapeados mais de 60 mil pontos deste tipo, que são atualizados constantemente. “Todos os questionários são aplicados com o uso de tablets, que permitem a geolocalização online do entrevistador, gravação das entrevistas e checagem instantânea das respostas, que são enviadas para a central de dados no mesmo instante em que são colhidas”, escreveu ele à BBC Brasil.

Por último, os dados são reunidos e tratados estatisticamente pelos institutos.

Você nunca foi entrevistado?

No caso de uma pesquisa de intenção de voto, por exemplo, o universo a ser estudado corresponde ao número de eleitores do Brasil – 146,4 milhões de pessoas, segundo o último número do TSE (março de 2018).

Como as pesquisas eleitorais geralmente ouvem cerca de 2 mil pessoas, a chance de você estar entre os “escolhidos” é realmente pequena – o que não torna o levantamento menos válido.

“As pesquisas de opinião são realizadas por meio de técnicas de amostragem reconhecidas internacionalmente, de modo que a abordagem de apenas uma pequena parcela da população já é suficiente para retratar o todo”, escreve Cersosimo, do Ipsos, em e-mail à BBC.

“Da mesma forma (que num exame de sangue), uma pesquisa eleitoral pode entrevistar cerca de mil pessoas e chegar a resultados que representam toda a população, desde que seja realizada com os métodos corretos de amostragem e dentro de uma margem de erro”, continua o diretor do Ipsos.

E por que os institutos não conseguem eliminar a “margem de erro” que existe nas pesquisas? Basicamente, porque seria preciso entrevistar todos os 146 milhões de eleitores, diz Márcia Cavallari, do Ibope. “Quanto mais entrevistas você faz, mais cai a margem de erro”, diz Cavallari.

“Mas, a partir de um certo ponto, você pode aumentar o quanto quiser a sua amostra (o número de entrevistas) que a margem de erro varia pouco”, conta a CEO do Ibope. No Brasil, as pesquisas eleitorais costumam variar entre 2% e 4% de margem, para mais ou para menos.

Enquete não é pesquisa

As pesquisas são cientificamente criadas para fazer com que as respostas sejam dadas por pessoas que “representem” o todo do grupo que se quer conhecer – em uma pesquisa eleitoral para presidente, este “todo” é o universo dos eleitores brasileiros.

Já as enquetes de um site ou página não têm qualquer controle de quem vai responder às perguntas – por isso, podem acabar “ouvindo” de forma desproporcional pessoas de uma determinada classe social, faixa de escolaridade, profissão ou até inclinação política. Os resultados estarão, portanto, distorcidos.

“Podemos destacar, por exemplo, a limitação que ocorre pelo próprio público, uma vez que parte da população não tem acesso à internet. Do mesmo modo, o perfil de quem responde espontaneamente às enquetes não é o perfil geral do eleitor, o que acaba enviesando os resultados”, diz Danilo Cersosimo, do Ipsos.

“Por isso mesmo existe uma diferenciação do que pode ser chamado de pesquisa, com métodos que devem ser seguidos, e enquetes, que podem ser feitas sem adoção de critérios científicos”, diz ele.

Fonte: BBC Brasil

Estado de São Paulo é o que vai decidir a eleição, diz cientista político

Por Julia Wiltgen

A eleição presidencial de 2018 será decidida no Estado de São Paulo, diz o cientista político José Luciano Dias, sócio-diretor da CAC Consultoria Política. O especialista falou, na última quarta-feira (18), em evento para clientes da Opus Genial, braço de gestão de fortunas da GENIAL em parceria com o grupo Opus.

Durante o painel, Dias apresentou as perspectivas para as eleições presidenciais deste ano e alguns números que contrariam ideias do senso comum em relação à votação no país.

“Ainda não existe candidato claro em São Paulo, mas é isso que vai decidir a eleição em 2018”, disse Dias.

O consultor lembra que o cenário eleitoral ainda está muito fragmentado no Estado de São Paulo. Segundo a última pesquisa Datafolha, publicada em 16 de abril, em um cenário eleitoral com Lula, o petista tem 20% das intenções de voto no Estado, seguido de Bolsonaro (PSL), com 14%, e Alckmin (PSDB), com 13%, considerado empate técnico pela pesquisa.

Em um cenário sem Lula, Alckmin e Bolsonaro dividem a liderança no Estado, com 16% cada um. “Nos próximos 30 dias, o fato relevante para essa eleição deve ser produzido pelo Estado de São Paulo”, projetou Dias.

Durante sua apresentação, Luciano Dias apresentou alguns pontos, baseados em dados da sua consultoria, que contrariam algumas visões do senso comum quanto ao que faz um candidato ganhar as eleições presidenciais no Brasil.

Uma delas é a de que a região Nordeste é capaz de eleger um presidente. Os dados mostram que, em geral, a disputa presidencial se dá entre o candidato preferido do Nordeste e o preferido no Sudeste, e que o Nordeste normalmente vota no candidato do governo.

Porém, o Sudeste é muito mais decisivo que o Nordeste na escolha presidencial, devido à sua maior população. O Nordeste concentra apenas 27% dos votos do país, enquanto o Sudeste concentra 43,3%.

Nesse sentido, o Estado de São Paulo é particularmente relevante na escolha presidencial. “Para vencer a eleição presidencial, um candidato tem que ganhar no Sudeste e ser relevante no Estado de São Paulo. Ganhar no Nordeste apenas não adianta”, explicou Dias.

Lula

O ex-presidente Lula ainda tem em torno de 30% das intenções de voto no país, sendo 50% no Nordeste. Segundo Dias, seu eleitorado fiel representa 15% dos eleitores, mais os eleitores de baixa renda pouco afetados por notícias – mas quanto mais notícias negativas sobre Lula, menores são suas intenções de voto.

“Lula tem pouca probabilidade de ganhar se o noticiário continuar negativo a ele”, disse Dias.

O cientista político explicou que Lula costuma unificar o voto da esquerda, mas não necessariamente transfere seus votos para outros candidatos petistas. Sendo assim, num cenário eleitoral sem Lula, seus votos tendem a ser canalizados para outros candidatos.

Além disso, embora o petista tenha seu reduto eleitoral no Nordeste, a região tende a votar no candidato governista e não necessariamente na esquerda, abrindo-se um espaço num cenário de eleição sem Lula.

Ativação do eleitorado

Segundo Dias, a ativação do eleitorado – momento em que os resultados das pesquisas se aproximam do resultado final da eleição – costuma ocorrer, no Brasil, entre o fim de junho e o fim de julho, não se sabe bem por quê. “Talvez porque por essa época comece um fluxo maior de notícias sobre as eleições”, palpitou Dias.

Em outras palavras, é por esta época que o resultado é definido, antes mesmo do início das propagandas eleitorais gratuitas em rádio e televisão. “TV não decide eleição”, disse o cientista político.

No Sudeste, o processo de ativação do eleitorado costuma ter duas etapas, uma no início do ciclo eleitoral e outra em junho e julho. Em razão disso, Dias acredita que o candidato preferido de São Paulo tem até junho para se estabelecer.

Alckmin versus Bolsonaro

Bolsonaro tem vencido na capital paulista, e Alckmin é o preferido no interior do Estado. Mas segundo o Luciano Dias, o cenário em São Paulo é mais favorável a Alckmin do que a Bolsonaro. O candidato do PSDB tem a seu favor um fator que, historicamente, tem sido de alta relevância para a vitória numa eleição – é um candidato que está no poder.

Além disso, Alckmin tem, historicamente, mais de 45% das intenções de voto para governador no Estado de São Paulo, tendo sido eleito com mais de 50% dos votos nas três eleições estaduais de que participou. “Ele é o verdadeiro coronel brasileiro. Esses percentuais são maiores do que os dos políticos tradicionais do Nordeste”, comentou Dias.

Bolsonaro, por outro lado, tem contra si os fatos de nunca ter ocupado um cargo executivo, ter seu eleitorado concentrado no segmento de homens jovens de alta renda e alta escolaridade e sofrer de um “gap” de gênero: sua rejeição entre as mulheres é elevada, o que significa ser rejeitado por metade do eleitorado.

“Com ‘gap’ de escolaridade, renda e gênero, Bolsonaro não vai à frente, porque não atrai eleitorado novo”, avaliou Dias. Ainda assim, trata-se de um candidato desestabilizador. “Ele prejudica os avanços dos demais candidatos”, explica Dias.

O candidato do PSL tem perdido intenção de voto, mas mantém-se com mais de 15% em nível nacional, o que não é comum para um candidato relativamente desconhecido que não ocupa cargo executivo nem nunca ocupou. Segundo Dias, esse perfil de candidato costuma ter de 7% a 8% das intenções de voto.

O cientista político projeta que a próxima pesquisa não deverá mostrar avanço das intenções de voto em Bolsonaro, com o percentual atual se mantendo estável.

Julia é jornalista formada pela UFRJ, com pós-graduação em Finanças Corporativas e Investment Banking pela FIA. Especializada em finanças pessoais e investimentos, foi editora-assistente de Exame.com, após passagem pela TV Globo. Atualmente, cursa graduação em Economia na USP.

Fonte: Blog Genial Investimentos

Empresas regulam doações eleitorais de funcionários

Após escândalos envolvendo financiamento de campanhas políticas, instituições adotam códigos de conduta para esse tipo de repasse

Na primeira eleição geral que contará só com financiamento de pessoas físicas e recursos públicos, as principais empresas do País têm orientado seus executivos e funcionários a não vincularem eventuais doações a candidatos às companhias onde trabalham. Há casos de empresas que chegaram a proibir esse tipo de repasse até mesmo por parentes de seus empregados.

O veto à participação no processo de financiamento de campanha partiu principalmente de companhias que se envolveram na Operação Lava Jato, e que tiveram seus ex-presidentes presos, como as empreiteiras OAS e UTC e o banco BTG Pactual.

A OAS é a que adota o posicionamento mais rígido entre as empresas pesquisadas pelo Estado ao recomendar que seus colaboradores “não realizem doações político-partidárias em nome próprio, nem por meio de seus respectivos cônjuges e parentes de 1.º grau”. Em nota, a construtora afirmou que a medida pretende evitar que uma possível doação seja atribuída à empresa. Em 2014, a OAS foi uma das dez maiores doadoras de campanhas eleitorais – quase R$ 83 milhões.

Isadora Peron, Brasília

Fonte: O Estado de S. Paulo